top of page

Vereador de Assis se afasta após sofrer ameaça de morte



O vereador Fernando Sirchia anunciou, na segunda-feira (30), o afastamento temporário de suas funções na Câmara Municipal de Assis. A decisão foi tomada após o parlamentar afirmar ter sido vítima de uma ameaça de morte, o que também colocou em risco a segurança de seus familiares.

Segundo Sirchia, o afastamento será de 30 dias. Durante esse período, não haverá necessidade de convocação de suplente para ocupar a vaga no Legislativo.

O caso que motivou a decisão ocorreu no dia 23 de março, quando um homem foi até a residência do vereador e, ao ser atendido, teria sacado uma arma de fogo e apontado contra seu peito, exigindo que ele “parasse de falar”. De acordo com o parlamentar, a ação foi acompanhada de ameaças diretas relacionadas à sua atuação política. A esposa dele também teria sido intimidada.

Após o episódio, Sirchia registrou ocorrência na Delegacia Seccional de Polícia de Assis. Mesmo abalado, ele ainda compareceu à sessão da Câmara naquela noite, marcada por uma homenagem póstuma à sua avó.

Em declaração, o vereador afirmou não contar com qualquer tipo de proteção, o que pesou na decisão de se afastar temporariamente. Ele também criticou a falta de avanços nas investigações e a ausência de identificação dos responsáveis até o momento.

Sirchia destacou que o afastamento não representa recuo, mas uma medida necessária diante da gravidade da situação. Segundo ele, ao longo dos seis anos de mandato, nunca havia se licenciado, mesmo diante de pressões.

O parlamentar também chamou atenção para a pouca repercussão do caso e alertou para os riscos da banalização de ameaças contra agentes públicos.

Apesar do afastamento, ele afirma que pretende retomar suas atividades assim que houver condições de segurança, reforçando que seguirá atuando e não pretende se calar diante das intimidações.


NOTA NA ÍNTEGRA

NOTA DE AFASTAMENTO


Hoje eu me afasto.

E essa é a primeira vez, em seis anos de mandato, que preciso tomar uma decisão como essa.

Nunca recuei. Nunca me escondi. Nunca deixei de estar presente, de fiscalizar, de enfrentar o que precisava ser enfrentado. Sempre estive de pé, mesmo nos momentos mais difíceis.

Mas hoje, pela primeira vez, eu preciso parar.

Eu fui ameaçado de morte.

E não foi uma ameaça distante. Não foi uma mensagem qualquer. Não foi algo que dá para ignorar.

Eu tive uma arma apontada para mim por conta da minha atuação enquanto vereador.

A arma foi engatilhada.

E, naquele momento, me disseram com todas as palavras que era para eu calar a boca.

Que eu estava sendo x9. Que eu estava falando demais. Que eu deveria parar, ou iriam me matar. E não só a mim. Também ameaçaram a minha esposa.

É impossível sair ileso de um momento assim.

Ali não era mais política. Não era debate. Não era disputa.

Era a minha vida em risco.

E, pela primeira vez, eu senti medo.

Não só por mim.

Mas pela minha mãe. Pela minha esposa. Pela minha família. Pelas pessoas que eu amo e que nunca escolheram estar no meio disso, mas que agora estão pagando o preço junto comigo.

Mesmo diante desse cenário, minha mãe está sendo atacada.

Não bastasse a ameaça de morte contra mim e a minha esposa, esse momento vem sendo usado por pessoas ligadas à gestão para intensificar ataques pessoais, baixos e covardes.

Em vez de qualquer gesto de humanidade, escolhem atacar. Em vez de recuar diante da gravidade, avançam sobre quem já está ferido.

Isso não é política.

Isso é crueldade.

Isso é o retrato de até onde nós chegamos.

Assis está doente.

Doente quando permite que a divergência vire perseguição. Doente quando quem fiscaliza vira alvo. Doente quando pessoas próximas ao poder se sentem autorizadas a atacar a família de alguém que está sob ameaça real de morte, como se isso fosse normal.

Não é.

E nunca pode ser.

E há algo que também precisa ser dito, porque o silêncio sobre isso também machuca.

A grande mídia simplesmente não apareceu.

Um vereador ameaçado por cumprir seu dever institucional, com uma arma engatilhada, com ameaça de morte contra si e contra sua esposa, e isso não virou nem nota de rodapé na televisão regional. Nenhuma indignação pública. Nenhum debate. Nenhuma cobrança.

Hoje me sinto como o homem de Construção, de Chico Buarque, esmagado pelo peso do que ergui com as mãos calejadas, pela súbita violência do instante e pelo silêncio indiferente de um mundo que segue seu curso.

O dia amanhece, as pessoas tomam seu café e seguem a vida como se nada tivesse acontecido.

Como se a vida não valesse nada.

Como se fosse só mais um corpo invisível no caminho.

Essa indiferença também fere.

Fere porque normaliza o absurdo. Fere porque transforma o que é grave em algo descartável. Fere porque passa a mensagem de que, quando a violência chega nesse nível, ainda assim ela pode ser ignorada.

Hoje eu me afasto porque eu preciso proteger a minha vida e a vida de quem está ao meu lado.

Essa decisão não vem de fraqueza. Vem de responsabilidade. Vem do amor que eu tenho pela minha família. Vem da consciência de que eu não posso ignorar o risco real que está colocado diante de mim.

Mas existe algo que precisa ser dito com toda clareza.

O que aconteceu exige resposta.

E não qualquer resposta.

É preciso identificar quem executou essa ameaça, sim. Mas, principalmente, é preciso chegar a quem mandou.

Porque ninguém puxa uma arma desse jeito por acaso.

E aqui está um ponto que não pode ser ignorado. O Estado não tem conseguido investigar com a profundidade necessária. Não tem conseguido chegar nem ao executor, nem ao mandante. E, quando o Estado falha em investigar, ele produz o pior resultado possível: a impunidade.

A impunidade não é um detalhe.

A impunidade incentiva. A impunidade protege quem age na sombra. A impunidade autoriza que isso aconteça de novo.

A impunidade mata a democracia.

E, diante disso, não cabe silêncio. É preciso cobrar respostas de todas as autoridades responsáveis. Isso é um dever civilizatório de todo cidadão que crê na democracia.

Hoje, eu também preciso dizer algo que dói.

O Estado brasileiro não foi capaz de me proteger.

Não foi capaz de garantir o mínimo para que eu exercesse o meu mandato com segurança.

Não foi capaz de impedir que eu chegasse ao ponto de ter uma arma apontada para mim por fazer o meu trabalho.

E quando o Estado falha assim, ele expõe não só a mim, mas qualquer cidadão.

Eu me afasto, mas não me calo.

Saio para continuar vivo. Para proteger quem eu amo. Para ter a chance de voltar e continuar fazendo aquilo que sempre fiz: enfrentar o que está errado.

Comigo, a imagem daquela arma apontada para mim.

Levo o desespero de saber que minha família foi colocada em risco.

Levo a revolta de ver minha mãe sendo atacada de maneira covarde, mesmo em um momento de extrema vulnerabilidade, após ter o próprio filho ameaçado de morte.

Mas levo também a minha consciência tranquila e durmo o sono dos justos.

Eu sei quem eu sou. Sei o que eu fiz nesses seis anos. Sei que nunca usei meu mandato para perseguir ninguém, mas também nunca deixei de cumprir o meu dever.

Se alguém achou que isso me faria parar, se enganou.

Isso não termina aqui.

Eu vou voltar.

Porque a verdade não pode ser calada pelo medo.

Porque a justiça não pode ser sufocada pela intimidação.

Porque eu me recuso a aceitar que apontar uma arma para alguém, ameaçar sua vida, sua esposa e atacar sua família vire algo normal.

Hoje eu me afasto.

Mas é exatamente por isso que essa luta continua.


 
 
 

Comentários


bottom of page